Vimblastina

 

Texto de 1Luís Mafra e 1Ana Rodrigues.

1Alunos do 4º ano de Química Aplicada da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologias – Departamento De Química

 

                                                Nome comercial mais comum

                                              Nos E.U.A Velban®

                                                            No Canadá — Velbe®

                                                                                                                 Dados Químicos

Caixa de texto: CAS Registry Number: 143679
Formula Molecular: C46H58N4O9
Peso Molecular: 810
Categoria: Agente antimitótico
                                                                    

                                                                                                                 

 Fig. 1 Catharanthus roseus (Madagascar Periwinkle)

 

Introdução

 

V

imblastina, é um  alcalóide, com aplicações anti-cancerígenas, principalmente contra a leucemia, encontrado numa planta denominada de Madagáscar Periwinkle, Catharanthus roseus. Este metabolito pertence à classe dos famosos alcalóides Vinca (também classificados como Vinca rósea)

 

A vimblastina e os seus derivados semi-sintéticos, vindesina e vinorelbina, todos eles desempenham um papel importante na inibição da mitose (divisão celular) mais propriamente na metáfase. Estes alcalóides ligam-se à tubulina, impedindo a célula de criar um fuso mitótico, de que precisa para ser capaz de provocar a movimentação dos cromossomas à medida que se dá a divisão. Este é um modo de acção similar à colchicina, mas diferente da acção do plaxitel, o qual interfere com a divisão celular impedindo a migração dos cromossomas. Os alcalóides Vinca também parecem interferir com a capacidade da célula para sintetizar DNA e RNA. Todos eles são administrados por via intravenosa exclusivamente sob a forma de sulfato; a sua administração noutra forma torna-se fatal, e podem causar irritações na pele em caso de verter para fora da veia. Contudo estes compostos são muito similares estruturalmente e possuem o mesmo modo de acção básico, tendo efeitos distintos no corpo.[1]

 

 

A descoberta da vimblastina

 

Dr. Robert Laing Noble

 

Dr. Robert Laing NobleNascido em Toronto, em 1910, o Dr. Robert Laing Noble graduou-se na Universidade de Toronto em 1934, acabando por tirar o Ph.D. em 1937 na Universidade de Londres em Inglaterra. Voltou ao Canada para trabalhar com o Dr. J.B. Collip na McGill University na área de cancros endócrinos. Em 1947, o Dr. Noble tornou-se director associado da Collip Medical Research Laboratory na Universidade de Western Ontario. Foi aqui que o Dr. Noble fez a descoberta da "vimblastina", contribuindo para o primeiro grande avanço na área da quimioterapia originado no Canadá.

A história da vimblastina, esteve muito relacionada com as diabetes. Em 1952, o Dr. Noble recebeu um envelope do seu irmão, Dr. Clark Noble, que continha 25 folhas vindas da planta Madagascar periwinkle (Vinca Rosea). Foi mandada da Jamaica, por um paciente do Dr. Clark, dizendo que o chá de periwinkle estava a ser usado na Jamaica para o tratamento de diabetes quando a insulina não estava disponível. Como o Dr. Clark Noble já não exercia investigação, enviou então as folhas ao seu irmão. As folhas tinham pouco efeito nos níveis de açúcar no sangue, mas possuíam efeitos inibitórios surpreendentes na contagem de glóbulos brancos, sugerindo que pudesse ter potenciais aplicações a nível do tratamento de cancro, em particular a leucemia.

Em 1954, o Dr. C.T. Beer juntou-se à equipa de investigação do Dr. Noble e por volta de 1958 conseguiram com sucesso isolar e purificar um alcalóide potente extraído das folhas da planta periwinkle, chamada de vimblastina. O trabalho feito com a Eli Lilly Co., permitiu a obtenção de maiores quantidades de vimblastina destinados a estudos clínicos. Os primeiros estudos e resultados que ocorreram em 1959, no hospital da Princess Margaret, em Toronto, foram bastante dramáticos. Verificou-se que a combinação da vimblastina com outras drogas tinha um maior impacto no controlo do crescimento numa variedade de diferentes tipos de cancros.

O Dr. Noble era um experimentalista experiente e ingénuo, tendo sido reconhecido e galardoado por diversas vezes pelo seu trabalho de investigação descrito por cerca de 200 artigos publicados. Em 1960, tomou o cargo de Director do Cancer Research e Professor de Fisiologia na University of British Columbia. Após a sua reforma em 1975, tornou-se membro convidado da Division of Cancer Endocrinology na BC Cancer Agency, onde prosseguiu a sua investigação até à sua morte em 1990.

 

 

 

 Aplicações médicas da vimblastina

 

 

vinblastine

 

A vimblastina pertence ao grupo das substâncias conhecidas de agentes antineoplásticos ou antimitóticos. É tipicamente administrada em doses de 6 mg por metro quadrado de superfície corporal e comercializado sob a forma de um medicamento chamado Velban, pela Eli Lilly e tem um tempo de semi vida na corrente sanguínea de 24 horas. Este agente antimitótico é usada principalmente para tratamento da doença de Hodgkin, limfoma linfocítico, limfoma histiocítico, cancro do testículo avançado, cancro da mama avançado, sarcoma de Kaposi e doença de Letterersiwe. Este composto parece combater o cancro interferindo com o metabolismo do ácido glutâmico ( mais especificamente, a via que vai do ácido glutâmico até ao ciclo de Krebs e à formação da ureia). A pessoas com infecções bacterianas não devem ser tratados com esta droga, o mesmo se aplica a mulheres grávidas, por causar sérios defeitos de nascença.

 

 

 

Caixa de texto: Fig. 2 Vimblastina

 

 

Efeitos laterais

 

  • A vimblastina provoca ardor quando em contacto com a pele.

 

  • Dores  podem ocorrer no local da introdução da agulha.

 

  • Náuseas raramente ocorrem com a vimblastina.

 

  • Queda de cabelo é moderada. Uma vez parado o tratamento o cabelo volta a crescer. A cor e a textura pode mudar.

 

  • A pele pode ficar gravemente queimada à luz solar com facilidade

 

  • Os níveis dos glóbulos brancos começam a diminuir 4-9 dias depois do tratamento. E só voltam ao normal 1-3 semanas após o último tratamento.

 

  • O nível das plaquetas sanguíneas pode diminuir 4-9 dias após o tratamento. Voltarão ao normal 1-3 semanas após o último tratamento.

 

  • Dores de cabeça, diarreia, dores musculares, dores de estômago, entre outras.

 

Quando a dosagem se torna elevada um dos danos típicos dá-se a nível da medula óssea

 

 

 

Para informações mais detalhadas sobre a vimblastina navegue nos seguintes sites:

 

http://biotech.icmb.utexas.edu/botany/perihist.html -Cyberbotanica: Periwinkle

http://biotech.icmb.utexas.edu/search/dict-search.phtml?title=diabetes - Diabetes

http://biotech.icmb.utexas.edu/botany/vvv.html - Cyberbotanica: Vimblastina, Vincristina, Vindesina, Vinorelbina

http://www.cheshire-med.com/services/pharm/meds/vimblastina.html - VIMBLASTINA - INJECTION (Velban)

www.cancerbacup.org.uk/info/vimblastina.htmAplicações da vimblastina no cancro

http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/vinblastinesystemic202593.html  - MEDLINEplus Drug Information: Vimblastina (Systemic)

http://hortiplex.gardenweb.com/plants/p1/gw1008612.html  – Base de dados para todo o tipo de plantas (muito interessante)

http://www.biologie.uni-hamburg.de/b-online/e20/20a.htmBiossíntese dos alcalóides

www.life.uiuc.edu/plantbio/363/lecture35-36.html – Biossíntese da vimblastina

http://www.transy.edu/homepages/chem4014/cancer/Synthesis.htm – Mecanismo de síntese para a vimblastina.

http://biochemistry.umc.edu/bi953037i.pdf – interacção dos alcalóides vinca com a tubulina

http://www.pharmacology2000.com/Chemotherapy/Anticancer/classes1.htm – classificação de drogas e mecanismos de acção

 

 

Descontrai-se um pouco e aprecie um pouco de “comédia química”

 

http://www.strange-matter.com/chem.htmlCartoons para QUÍMICOS

http://www.bris.ac.uk/Depts/Chemistry/MOTM/silly/sillymols.htmMOLÉCULAS COM NOMES BIZARROS!!!

 

 

 

Caixa de texto: Mecanismo proposto 

 


Biossíntese dos alcalóides vinca

 

A Catharanthus roseus produz uma grande variedade de alcalóides exóticos, cujas vias biossintéticas têm sido intensivamente estudadas por Battersby, Arigoni, Scott, e outros. Três estruturas básicas são normalmente encontradas, a vindolina, catharantina e ajmalicina. Se observarmos com atenção, na fig. 4 as duas moléculas que se agregam para dar origem à vimblastina, a vindolina e a catharantina, verifica-se a existência de uma subunidade C10, para além do índole, que deverá ser derivada de um percursor monoterpeno iridoide.

 

 

 

 

As experiências de Scott e Stockigt apontaram para o envolvimento de um intermediário que está ilustrado no início da fig. 3, como progenitor dos dois alcalóides principais envolvidos na biossíntese da vimblastina. As vias para a formação deste intermediário têm sido propostos por diversos autores, sendo meramente especulativas.

Contudo, se aceitarmos a existência de um intermediário deste tipo, podemos racionalizar a formação de dois tipos de alcalóides, via um processo de Diels-Alder.  

Com algumas incertezas acerca da biossíntese, verifica-se, pelo esqueleto da vimblastina na figura 6, que se trata da fusão de duas moléculas (vindolina + catharanthina), em que ambas derivam do triptofano com o se observa nas linhas realçadas a azul.[2,3]

 

 

 

                                                                                                                     

Fig. 3Proposta de uma via biossintética para a formação do intermediário percursor da vimblastina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fig. 4 Biossíntese da vimblastina a partir da vindolina e a catharanthina.

 

 

 

 

 

Esquema resumido da biossíntese da vimblastina

 

 

STR

 

6 enzimas

D4H, DAT

 

TDC

 

Fig. 5 Reacções e intermediários chave na biossíntese dos alcalóides de indole derivados do triptofano e de uma unidade C10 de monoterpeno iridoide. [4]

 

 

 

Análise do esqueleto da molécula

 

Verifica-se que os alcalóides vinca, nomeadamente a vimblastina, possuem bem patente, o esqueleto do percursor, triptofano, 

 

                                                                                                                                                               Fig. 6 Estrutura do triptofano contido nos alcalóides vinca

 

 

Previsão do espectro de 1H NMR para a vimblastina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                                                                                         

Exemplo de como se pode chegar a uma estrutura química…

 

 

 

 

Mecanismo de acção

 

 

  • Os alcalóides vinca são agentes específicos do ciclo celular e bloqueiam a mitose celular.

 

  • O fuso mitótico é um dos mais extraordinários exemplos, cuja formação se dá após a desorganização dos microtúbulos citoplasmáticos no início da mitose. O fuso mitótico é o alvo de uma variedade de drogas antimitóticas específicas que interferem com a troca de subunidades de tubulina entre os microtúbulos e o pool de tubulina livre. Algumas dessas drogas, são a vinblastina e a colchicina. Estes alcalóides ligam-se firmemente a uma molécula de tubulina, impedindo a sua polimerização não se ligando, no entanto, à tubulina já polimerizada. A exposição de uma célula em divisão com estas drogas, causa o desaparecimento rápido do fuso mitótico, indicando que o equilíbrio químico é mantido através da troca constante de subunidades entre os microtúbulos do fuso e o pool de tubulina livre. Como o rompimento temporário dos microtúbulos do fuso mata preferencialmente muitas células que se dividem de forma anormal, drogas antimitóticas como a vimblastina e vincristina, são amplamente utilizados no tratamento do cancro. [1]

 

 

 

Fig. 7 Fases do ciclo celular. Identificação das drogas segundo o respectivo local de acção. [5]

 

 

Descrição e História natural da Periwinkle


Catharanthus roseus é conhecida como Madagascar periwinkle, mas a sua classificação pode ser contraditória em alguma literatura porque esta planta já foi classificada como sendo a espécie Vinca rosea, Lochnera rosea e Ammocallis rosea.[6]

 

De qualquer forma, esta periwinkle é uma planta da família das Apocynaceae nativa da ilha de Madagáscar. Tem sido vastamente cultivada, durante centenas de anos e pode ser vista nas regiões mais quentes do mundo, incluindo o sul da América. Estas plantas crescem entre 2 pés de altura, possuem folhas brilhantes de cor verde escura e têm flor durante todo o Verão. 

Esta planta foi historicamente usada para tratar, durante séculos, as diabetes na Europa. Na Índia, o sumo destas folhas era usado para tratar doenças difíceis. No Hawaii, a planta era fervida para fazer uma pomada com funções hemostáticas. Na China, era utilizada como remédio diurético e contra a tosse. [7]

Para certas tribos, os extractos de folha destas plantas era usado para fazer soluções para tratamento de irritações e infecções dos olhos.

Também teve reputação, como planta mágica. [8] Os europeus pensavam que ela podia afastar espíritos malignos.

Até hoje, sabemos que esta planta possui cerca de 70 alcalóides. Para além da vimblastina e vincristina, que possuem propriedades anti-cancerígenas, estas plantas possuem a catharanthina, leurosina sulphate, lochnerina, tetrahydroalstonina, vindolina e vindolinina, que baixam os níveis de açúcar na corrente sanguínea.

As Periwinkles também possuem os alcalóides reserpina e serpentina, que são poderosos tranquilizantes.

 

Leitura sugerida

"Indole Alkaloid”, Eds. Atta-ur-Rahman and A. Basha, Vol. 2, Harwood Academic Publishers, Amsterdam (1998).

"The Synthesis of Vimblastina and Vincristina", Atta-ur-Rahman, Proceedings of Third Asian Symposium on Medicinal Plants and Spices, Colombo, 6-12 February (1977).

"Natural Product Chemistry", Atta-ur-Rahman, Springer-Verlag, Heidelberg (1986).

 

Referências

 

[1] Alberts. B, Bray. D, Lewis. J, Raff. M, Roberts. K, Watson. J. 3ª ed., 1997. Biologia Molecular Da Célula. Editora Artes Médicas Sul LTDA

[2] Atta-ur-Rahman,  A. Basha, "Biosynthesis of Indole Alkaloids", Clarendon Press, Oxford (1983).

 

[3] Mann. J. Secondary Metabolism, 2ª ed, Oxford Science Publications (1987).

 

[4] www.biologie.uni-freiburg.de/data/ schroeder/P450_Vimblastina.html

 

[5] Beare, P.G., & Myers, J.L. 1998. Adult Health Nursing, 3ª ed. St. Louis. Mosby.

[6] Heywood, V.H., ed. 1993. Flowering Plants of the World. New York, NY, Oxford University Press.

[7] Simpson, Beryl Brintnall and Molly Conner-Ogorzaly. 1986. Economic Botany: Plants in Our World. New York, NY, McGraw-Hill Publishing Co.

[8] Dobelis, Inge N., ed. 1989. Magic and Medicine of Plants. Pleasantville, NY, Reader's Digest Books.

 

Contactos:

 

luismafra@hotmail.com

 anamrodrigues@netcabo.pt